Entrevista a Gilberto Lascariz Parte 2
15 -Então qual o aspecto desse vosso Deus Solar?
Sabe qual é o aspecto do nosso deus solar não sabe? Não se ria...sabe perfeitamente como ele é, ou imagina pelo menos! Com os seus chifres galhados de cervo com sete ramos como se fossem as sete forças planetares, o seu rosto maduro e barbudo, o seu sorriso matreiro e os seus cascos de bode e... não tenha medo de o saber: o seu falo erecto! Claro, o seu falo erecto!.. o nosso Deus não é um deus castrado mas um deus viril!
Sabe quem é esse Deus e como é representado na Grécia Clássica? Não! Não é Pã! É Hermes! Hermes refere-se a Mercúrio, o símbolo simultâneo da racionalidade e da memória na astrologia mas também da fertilidade com que era representado nos postes fálicos chamados Hermes e onde as raparigas se esfregavam para serem férteis. Sabe que isso não é, no entanto, apenas grego! Em muitas partes do mundo esses mastros cerimoniais de propiciação da vida, saúde e fertilidade existem com a mesma semelhança!
Sabe que em Portugal, precisamente perto do Porto, na Murtosa, na capela de S. Gonçalo no lugar de Bunheiro, as mulheres chegavam diante do santo na Igreja e levantavam a saia para propiciar a cura, e houve mesmo uma jovem que a todo o custo tentou rezar nua na capela para curar os cravos que lhe tinham coberto o corpo. Na foz do Douro, em Gaia, havia uma grande pedra onde as mulheres se rebolavam, muito polida de tanto as mulheres nele se esfregarem. Os etnógrafos do século passado chamavam-lhe a "pedra da fertilidade". Elas montavam a pedra e deslizavam com o corpo nu debaixo das saias pela pedra abaixo. Deviam ficar completamente esfoladas com tanta ânsia de serem mães, coitadas! Existe também, muito perto da ermida romano-gótica de S. Domingos em Armamar, um conjunto de pequenas rochas graníticas onde os casais estéreis vinham dormir e fornicar na ânsia de terem filhos. Foi assim que o nosso Rei D. Afonso V, o Africano, veio com sua esposa D. Isabel e nele concebeu a Princesa Joana.
Essa pedra fálica é Hermes, o Cornigero como era representado nas suas versões arcaicas. Este Hermes-Mercúrio está sempre tão próximo do Sol que nunca o podemos ver, nem mesmo á noite, de tanto ofuscado ele está pelo seu esplendor solar! Mercúrio tem uma distância orbital do Sol de 28º e é um análogo dos 28 dias da Lua. Muito interessante, não é! Percebe porque a Lua e Mercúrio são pares rítmicos? De certa maneira Hermes é o Sol, mas num nível mais terreno!
É interessante realçar que na sua origem, antes de Heródoto, lá pelo tempo de Homero, ele tinha cornos e lhe erguiam Mastros fálicos em sua homenagem, e como Hécate também ele regia os caminhos: os que vinham do inferno para o céu e vice-versa! Ele tornou-se o Deus da Magia e o Patrono da Alquimia! Não acha estranho um deus tão viril e inteligente transformar-se neste papel? É nessa relação entre a libido dos órgãos sexuais e a cabeça dos órgãos cerebrais que está o mistério da antiga bruxaria!
Ora, por detrás do nosso Deus Cornudo está Hermes! Também ele está associado a uma Deusa Nua como a nossa Deusa do Wicca. Refiro-me a Afrodite, de cujo filho nasceu o Hermafrodita, o Andrógino Primordial ou o Adão Cadmon, como lhe chamam os cabalistas. É pela união de Hermes e Afrodite que se pode reconstituir o estádio de unidade original. Ora os sabates referem-se a este Hermes, que também é um multifacetado, e que vai aos Infernos buscar Perséfone, que por vezes parece ser uma outra faceta de Afrodite por intermédio do mito de Adónis e do mito de Psique.
Através dele circulamos por secções específicas do ano e do universo visível da nossa estrutura suprasensível, tomando como relógio o calendário antigo da agricultura. Sabe porquê? Porque Hermes e Perséfone estão ambas ligadas ao mistério do Cereal-Sol em Elêusis. Como não podemos ver o Sol de frente, e ainda muito menos o Sol Divino dentro de nós, então podemos ver a Semente de centeio, que é a sua hierofania! Essa semente cresce e transforma-se, e com ela também a terra e o ano, mudando de face como a Lua sua Mãe.
Ele tem Oito Faces e chamamos-lhe os Oito Sabates da Roda do Ano. O único a perceber este Mistério no tempo de Gerald Gardner, que apenas nos deixou fragmentos superficiais sobre os Sabates, foi sem duvida Aleister Crowley e Rudolf Steiner.
Eu gostaria de terminar com uma provocação á laia de iniciação. Aí vai: a representação destas oito faces está claramente transcrita na imagem do Arcano "Luxúria" do Tarot de Crowley. Aí você vê a Besta e a Babilónia, ou Therion e Babalon, e notará que a Besta tem Oito Faces. Não se surpreenda...tem mesmo OITO FACES, se contar com a de traz representada pela cabeça solar da Serpente. A Deusa Babalon monta a Besta, mergulhados nas trevas suavemente iluminadas pela luz lunar que desce até á sua taça elevada pela sua mão direita estendida um estado de langor. Pela rédea ela comanda com a mão esquerda abaixada a remersão dessas forças adormecidas dentro do Leão e com a outra mão erguida recebe a Luz. Esta é uma mensagem cifrada que no tempo presente é a Mulher ou, para ser mais exacto, o aspecto feminino da natureza humana que recebe a Luz do Sacerdócio Antigo. Ela está em transe ou em estado de entusiasmo místico e toda a mensagem sub-repticiamente fala do poder da sexualidade sob o sigilo do Leão-Serpente como o Poder que unifica o Céu e a Terra, o Macho e a Fêmea, Hermes e Afrodite, e os sintetiza na Grande Obra mágica do Andrógino!
16 - Porque é que o Pentagrama é o emblema da Wicca e o usa tantas vezes quando tem de explicar algum tema da Wicca, nos seus livros, textos e conferências?
R: O Pentagrama funciona para nós wiccans como um modelo arquetípico que nos permite entender processos de vida e de consciência aparentemente irracionais, e lhes descobrir lógicas ou semânticas, que a racionalidade de outra forma não tem aptidão para tornar inteligível. Ele ajuda-nos a "ver" como os processos de vida se articulam com os processos de consciência e interagem entre si.
Mais: ajuda-nos a sermos parte do Todo e simultaneamente o Todo de Tudo, a entender o real e o irracional como partes complementares do universo. Na realidade vivemos de tal maneira submersos no nível da nossa consciência empírica, que tudo o que saia fora da racionalidade e do bom senso se torna incognoscível.
O Pentagrama funciona, então, como uma espécie de superstrutura cognitiva, de mântica, permitindo compreender os padrões não racionais que existem por detrás de todos os fenómenos que não entendemos.
Vou ser mais específico: por exemplo, a maior parte dos rituais para serem espiritualmente efectivos precisam de ser de alguma maneira estruturados sob o simbolismo do quaternário, para que possa emergir a quíntupla dimensão dentro dele e o pentagrama se revele. A quíntupla dimensão de que falei é o mundo etérico dos ocultistas e das forças formativas do cosmos e que são a base de todos os fenómenos físicos e para-psíquicos.
Por isso há numerosos mistérios associados ao número cinco, por exemplo: alem da quarta potência da incógnita as equações não podem ser solucionadas por meios algébricos, isto é, por uma lógica esquematista e quantitativa como aquela que usamos no nosso mundo prosaico. E, por exemplo, os líquidos devem o seu estado muito particular de fluidez a uma organização em torno do número cinco. Mais: na teoria matemática dos grupos, por exemplo, é preciso inventar novos processos algébricos sempre que nós deparamos com o número cinco. É interessante não é?
Assim, o Pentagrama é muito importante para nós bruxos wiccans tradicionais. Mas não pelas razões que muitos eclécticos divulgam e que foram plagiar às tradições da magia cerimonial: a de que seria a representação dos quatro elementos sob a regência do Espírito Divino.
Como o universo tem somente quatro dimensões, três de espaço e uma de tempo, e como jamais podemos saltar para a quinta dimensão do mundo supra sensível a não ser pelo transe, então o pentagrama auxilia-nos a reencontrar correspondências criativas para tornar inteligível a aparente desconexão do nosso mundo tangível, sem necessidade de entrar num transe.
Como vê o que se tem escrito sobre o Pentagrama e a sua relação com o Wicca é apenas tralha literária e um conjunto de banalidades e lugares comuns. Repetem-se uns aos outros dizendo que este se refere aos quatro elementos e ao éter. É verdade que o Pentagrama tem a ver com os quatro elementos e o éter... ora, isso toda a gente sabe e não é preciso fazer uma página na internet para o declarar como se fosse um grande mistério!
O grande mistério, alem do que acima revelei, é o de na Wicca Tradicional a importância dos elementos estarem associados á acção das forças formativas ou etéricas num contexto de metamorfose alquímica da matéria e da consciência. A sua rotação nos rituais é pura magia alquímica, pela interacção das Polaridade do Duo Sacerdotal encarnando as forças do Enxofre e do Mercúrio alquímicos, do Sol e da Lua.
17 - Como foi introduzido o Pentagrama no Wicca?
Bem... repete-se constantemente em coro que veio da Maçonaria. Mas não veio de forma alguma da Maçonaria! Embora Gerald Gardner fosse um Co-Maçon!
É que o Pentagrama da Maçonaria é o Pentagrama Flamejante e não o nosso Pentagrama.
O Pentagrama veio, provavelmente, dos grimorios de bruxaria medieval, já que a primeira redacção do Livro das Sombras, a chamada "versão A", foi extremamente influenciado pelas Clavículas de Salomão, como aliás o primeiro livro de Gardner, "The High Aids", bem descreve!
Mas, a grande utilidade do Pentagrama, para nós wiccans, não é a de representar os quatro elementos sob a regência do espírito, como se divulga na literatura de «wicca de supermercado», mas simplesmente porque para nós Iniciados as relações fundamentais do universo se exprimem sempre pelo número cinco. Não há outro número simples que o possa fazer, a não ser através dos números transcendentais como, por exemplo, o pi.
Por isso, o trazemos ao peito sob a forma do pentagrama, aprendemos a emaná-lo na nossa aura, a usá-lo nos nossos rituais e criar segundo a sua "divina proporção, a consagrar todos os nosso instrumentos litúrgicos e a invocar os Deuses.
O Pentagrama ajuda-nos também a perceber as lógicas irracionais nos fenómenos de crise da nossa vida, quando a razão é impotente para nos dar alguma inteligibilidade dela. Poderia falar muito mais sobre o seu significado oculto no Wicca, porque é tempo de acabar com as excessivas banalidades escritas em livros de "wicca de supermercado" e aqui na web: deixarei, no entanto, essas questões para as minhas workshops e para livros futuros.
18 - Como surgiu o uso dos wiccan trazerem o pentagrama inscrito num anel e num dos dedos da sua mão?
Este uso parece que vem do hábito de Gardner usar um anel semelhante. No entanto isto não é uma invenção sua. Quando Gardner foi membro da Crotona Fellowship em meados de 1939 ele conheceu o seu líder Frater Aureolis que o usava num dos dedos da sua mão. O seu uso do pentagrama não era no entanto de inspiração maçónica, nem sequer mesmo dos grimorios medievais, mas uma consciente afirmação da adesão do seu líder aos ensinamentos pitagóricos. Aureolis inclusive clamava, como era moda entre os grupos de inspiração teosófica e antroposófica, ser a reencarnação de Pitágoras.
19 - É possível a prática solitária do Wicca?
R: Desde as descrições romanas que a bruxa era apresentada solitária, nas franjas culturais e geográficas da sociedade, como uma excluída no monte e desenvolvendo formas de magia cujas características são tipicamente xamânicas. Circe está isolada na sua ilha e Medeia é uma bruxa solitária. Na Idade Media a bruxa e o bruxo são solitários que em estado alucinatório se encontram num mundo supra sensível.
Na essência todo o desenvolvimento místico é solitário e ninguém o pode fazer por si. A função do grupo iniciático é permitir o acesso a material prático e a uma estrutura meditativa e ritual transmitida pelo exemplo de alguém experiente com tais métodos, como quando você vai a um ateliê aprender a dançar tango ou a um ginásio aprender Kung-Fu. É pelo exemplo e vendo como se faz que se aprende, ajustando a nosso comportamento ao do professor.
Mas a função do grupo iniciático tem também outras finalidades:
* Permitir o degolamento do Eu empírico
* O auxílio personalizado de pessoas experimentadas nesses métodos mágico-iniciáticos.
* Transmitir o "Poder" de uma Tradição, o que se chama o Egrégore.
No entanto, a prática solitária na vida moderna, estimulada pelo contexto cultural experimentalista da filosofia americana tipo "do it yourself", tem sido apoiada fundamentalmente em livros lidos, estudados e aplicados pelos seus praticantes, de uma forma acrítica e desordenada. Já alguma vez tentou aprender Yoga ou Tai-Chi, ou até a pintar a aguarela através de um livro? Todos nós nos lembramos, concerteza, dos sentimentos de impotência e frustração nessas situações em que os livros eram de pouco auxílio. Quando uma aprendizagem implica o corpo, então os livros são de pouca ajuda!
Há subtilezas nos processos iniciáticos a que nenhum livro pode dar auxilio. A origem do livro como um guião mágico-religioso perde-se na memória dos grimorios e dos manuais de alquimia, mas grande parte desses livros eram dirigidos a uma classe já instruída nos fundamentos das técnicas ocultas, tal como acontece hoje a qualquer sofisticado manual de Java Script. Grande parte dos vanguardistas da prática solitária, eram então pessoas já treinadas nos processos mágico-iniciáticos de uma tradição como Doreem Valiente ou Marian Green.
Uma pessoa que parta do nada está diante duma tarefa onde o subjectivo e a fantasia vem eclodir nos processos mágico-religiosos. Antes de seguir uma prática solitária treine com alguém já experiente nos processos mágicos que vai estudar.
Grande parte dos solitários históricos da antiga bruxaria invocavam uma iniciação passada transmitida de forma pessoal, de mestre(a) a discípulo(a) e numa linhagem de praticantes solitários, ou então por iniciação visionária, tal como acontecia com os xamâs. Há casos históricos dessa iniciação visionária, quer na época da Inquisição quer no mundo moderno: lembre-se dos casos de Isobel Gowdie no século XVII e, modernamente, da artista australiana Rosaleen Norton.
A questão que se põe no mundo moderno é que a prática solitária é um processo que se desencadeia de fora para dentro a partir de leitura acrítica de livros, filmes ou modas passageiras, e não de dentro para fora, por uma iniciação visionária ou pessoal.
Por isso, a chamada auto-iniciação por estudo solitário do Wicca é quase sempre criadora de fenómenos aleatórios, inconsistentes e fantasiosos. Ela produz, a maior parte das vezes, alienação em vez de conhecimento e libertação.
20 - Mas eu tenho encontrado manuais para praticantes solitários! Então, qual o real valor destes livros e do apoio que eles podem me dar?
R: A partir dos anos noventa apareceram alguns manuais para wiccan solitários. Trata-se do caso de dois livros aparecidos no Reino Unido: em 1990 aparece "The Hedgewitch, a Guide to Solitary Witchcraft" de Rae Beth e em 1991 aparece " A Witch Alone: Thirtin Moons To Master Natural Magic" de Marian Green. Mas já em 1988 nos USA, no auge comercial de best sellers da Lewwellyn com os seus livros sobre Wicca, havia aparecido "Wicca, a Guide for the Solitary practitioner" do afamado escritor comercial Scott Cunningham.
A questão que se põe em relação a estes livros, sobretudo ao ao terceiro, é que cria a ilusão de que imitando certas cerimónias inventadas pelos autores e algum grau de fantasia, uma pessoa se torna automaticamente um auto-iniciado na Wicca. Na verdade estes livros não são sobre ritual mas teatro, e nem sequer na acepção em que era tomado por Stanilawsy ou Artaud! Na acepção de teatro pobre!
Esses manuais ajudam a difundir a ideia de que basta macaquear temas do Wicca que nos tornamos wiccans.
Na verdade o ritual wiccan exige um prévio treino meditativo e visionário já que 99% do trabalho magico se passa nos reinos internos do mundo astral e etérico. O que dele vemos se fossemos espectadores é apenas a casca exterior. Seria o mesmo que pensarmos que nos tornamos yoguis imitando os movimentos de hatha yoga de um saddhu. Eles exigem um treino interno para que as faculdades imaginativas sejam coordenadas com o corpo e a sua energia etérica, e se tornem assim em meios de projecção da vontade e de comunicação com o mundo invisível! Esta coordenação ritual de corpo + imaginação é semelhante ao Tai-Chi e exige um acompanhamento pessoal.
No entanto, eu penso que apoiado nos livros adequados e simultaneamente no apoio pessoal de alguém treinado na tradição, sem o compromisso restritivo de uma assembleia, é o melhor processo para o desenvolvimento da faceta de bruxo solitário. Este é o meio consagrado de ensinamento por exemplo entre os xamãs! Um outro meio é seguir workshops ao vivo com mestres treinados ou cursos por correspondência intervalado com encontros pessoais com o seu mentor.
21 - A imagem que tenho do Wicca é de uma restrita congregação de iniciados sob a autoridade da Grande Sacerdotisa e do seu Consorte o Alto Sacerdote. Então, desde quando é que existe uma prática solitária na tradição da Wicca?
R: Parece que a partir de uma certa altura, precisamente os anos oitenta, o conventículo ou assembleia tornou-se uma estrutura social bastante limitativa para algumas pessoas neles iniciados e a sua rotina processual ao nível mágico-religioso um aborrecimento. A função do coven tinha preenchido a sua função para eles.
Sentia-se aliás que a estrutura de assembleia herdada de Gardner se não saltasse para um nível mais abrangente de acção mágica definharia na rotina cerimonial da devoção religiosa e da obra curandeira. Alexander Sanders já havia pressentido isso e no fim dos anos sessenta já havia introduzido algumas inovações que se baseavam na redescoberta dos valores tradicionais da Alta Magia Ocidental.
Alguns conventículos investiram também em acções de ordem ecológica e ambientalista, feminista, até mesmo como célula guardiã de uma cultura tradicional que se ajustava ao espírito autonomista de certas regiões face ao poder central como na Irlanda, Escócia, Bretanha, dentro do espirito que Jules Michelet havia descrito mo seu livro A Feiticeira. O próprio Gardner havia dado o mote ao ter participado no putsh mágico anti-nazi em Stonehenge segundo contam as narrativas que criaram a lenda do Wicca. Este envolvimento criou um antecedente que se precipitou a partir dos anos setenta e oitenta numa consciente compromisso do trabalho mágico wiccan ter sempre alguma consequência positiva no ambiente e no nosso ecosistema da terra.
22 - Que tipos existem de Hedgewitches?
R: Há dois tipos de praticantes solitários: aqueles que trabalham fisicamente sozinhos, e contam apenas com a sua auto-motivação, a sua capacidade de estudo e critica, as suas faculdades físicas e psíquicas e aqueles que trabalham com a sua contraparte física feminina ou masculina, o seu companheiro ou companheira... sem mais ninguém!
No Wicca a expressão solitário aplica-se sempre a dois entes como um só: o Principio Masculino e o Principio Feminino. Pode acontecer que um bruxo wiccan solitário não tenha hipótese de trabalhar com uma pessoa de sexo feminino por exemplo, mas mesmo assim trabalhará com o seu princípio feminino oculto devendo para tal despertá-lo segundo técnicas consagradas apropriadas.
Eu costumo classificar a praticar solitária wiccan em dois tipos: o tipo estrutural e o tipo metodológico.
Na prática da magia wiccan quer se trabalhe sozinho ou acompanhado a dualidade da energia cósmica e sexual está presente no seu processo mágico-religioso como epifania da Dualidade Criadora dos Deuses Cornígeros. Mas esta classificação é de carácter estrutural.
Pode-se também definir os tipos de praticantes solitários pelo tipo de métodos que usam na ênfase que dão ao corpo ou á mente. Assim podem-se classificar entre duas tendências: uma tendência à performance, ilustrada pelo uso de métodos formais de Magia Cerimonial onde predominam comportamentos normativos de acção litúrgica, e uma tendência à homeostase, onde predominam comportamentos de grande flexibilidade e transgressão, como o Xamânico ou o Tântrico. Basicamente esta divisão é baseada no regime funcional do corpo: um de tendência para a norma e outro de tendência para a excedência. Esta última classificação é de carácter metodológico.
23 - Como é designado o praticante solitário do Wicca?
R: Desde 1990 que o nome consagrado por excelência para definir o praticante solitário do Wicca tem sido o de Hedgewitch, uma expressão engenhosa e feliz apresentada por Rae Beth.
A expressão no entanto não se aplica apenas ao solitário wiccan mas a todo o solitário que pratica processos de bruxaria visionária e neo-pagã.
A expressão "hedge" atribui-se a alguém que está na fronteira ou limites duma sociedade e das suas formas de vida padronizadas pelas modas e os preconceitos, no limbo semântico de uma cultura utilitária, por um lado, e erudita, por outro.
Mas essa fronteira é também o limiar da percepção cognitiva. Os métodos preferidos do Hedgewitch têm sido ordem ritual orientando-se por certas regras celebratórias do sistema wiccan e flexibilidade ritual por uma adesão á experiência visionária do transe lúcido. Lembre-se: transe lúcido não é o transe que leva à comatose, próprio dos fenómenos de possessão.
24 - Quais são as técnicas mágico-religiosas do Hedgewitch?
R: As técnicas mágico-religiosas de um Hedgewitch visam fundamentalmente permitir que ele funcione conscientemente no mundo supra sensível dos Deuses da Natureza. Esta técnica tem muitas semelhanças com as técnicas xamânicas que os povos siberianos e escandinavos usavam, como é relatada na Historie Norwiga, muito mais do que os seus modelos mediterrâneos que vemos representado na figura de Aradia. O modelo visionário de trabalho wiccan está ja sugerido sob a forma de mito nas lendas á volta do Cornigero Merlin.
As técnicas do hedgewitch podem estruturar-se em cinco partes cumulativas e correspondentes aos ângulos do Pentagrama:
* a transfiguração visionária na natureza através de vários retiros nos bosques e no pico de colinas, ou em lugares santificados por vestígios funerários megalíticos, no sentido de reactivar experiências primitivas no campo da consciência.
* a transfiguração visionária através de rituais de magia cerimonial onde se trabalham as metáforas e arquétipos da Wicca em certos períodos do ano.
* a transfiguração visionária através do uso de uma herbologia mística com fins de feitiçaria.
* a transfiguração visionária através do uso da sua sexualidade e das energias corporais numa perspectiva mágica e sacral.
* a transfiguração visionária através de técnicas de transe xamânico e sonho lúcido.
25 - Pode-me mencionar alguns Hedgewitches que tenham sido conhecidos?
R: Eu penso que o Hedgewitch mais importante deve ter sido Austin Osman Spare. A aura sacrílega que sobre ele pesa sobretudo nos meios puritanos do Wicca de "supermercado" coaduna-se bem com o modelo cultural do Hedgewitch como um indivíduo polémico, apostado na grande obra alquímica de transmutação do seu ego e defensor da anomia no plano ético. Ele apresenta todas as características fenomonológicas que se atribuem ao bruxo solitário, com a sua ênfase em técnicas xamânicas de índole visionária, a predominância duma cosmologia profundamente sexualizada do universo e o seu sistema altamente individualista.
26 - O que me aconselharia como atitude a tomar em relação á informação sobre o Wicca na internet?
R: Eu aconselharia o máximo de prudência.
A internet está cheia de conteúdos de Wicca completamente desinformados e desactualizados em matéria de pesquisa histórico-arqueológica e de cultura mágico-religiosa. Ainda se continua a encontrar milhares de sites que dizem que o Wicca é a Velha Religião da Europa, que é originária dos Celtas, que é de origem matriarcal, enfim, uma serie de medonhos tratados de estupidez cultural que merecem da parte das pessoas uma atitude de tolerante incredulidade.
Por outro lado está saturado de pessoas que se auto-designam por altos iniciados, altas-sacerdotisas, e que das supremas alturas da sua ignorância declamam extraordinárias imbecilidades com um ar misto de inocência e pose de santidade new-age. Eu dou-lhe um exemplo que me aconteceu há dois anos aqui na internet. Resolvi por mera curiosidade consultar a lista de sites portugueses sobre Wicca numa pesquisa pelo AEIOU. Escolhi um deles que é representante em Portugal de uma organização néo-pagã internacional. Entrei nesse site e fui ter a um artigo de uma dita HPs (Alta-Sacerdotisa). Li o seu artigo e deu-me, inevitavelmente, uma enorme vontade de rir. É que a dita HPs(?) descrevia as características simbólicas e sazonais de um Sabat que se realizava no mês de Agosto de uma forma completamente adulterada, porque o que ela descrevia não se passava em nenhuma parte pelo menos setentrional da Europa. Isto é, ela deveria ter lido o que escreveu em qualquer lugar aplicável á Irlanda ou á Escócia, mas a verdade era que isso não se podia aplicar em Portugal. Porque uma das coisas que se aprende no Wicca Tradicional no grau de HP e HPs é a de individualizar os materiais litúrgicos em acordo com as características físico-etéricas do lugar.
Assim, nunca se poderá transplantar literalmente um ritual wiccan sazonal, que tenha sido construído por exemplo para o território da Irlanda, para o espaço português. Ao telefone com uma colega inglesa gardneriana depois de lhe contar precisamente este caso ela contou-me que costuma viver em duas zonas completamente diferentes do espaço do Reino Unido, e que nos dois casos tinha rituais completamente diferentes um do outro em função da especificidade telúrica e cósmica do lugar onde os executava.
Este é um exemplo de como poderá encontrar no labirinto da net auto-proclamadas altas-sacerdotisas, com pomposas e mirabolantes declarações de iniciações em grupos de altos iniciados da Atlântida e de Avalon, e o que lhe peço é muita prudência. Na verdade não é possível dar regras de conduta crítica em relação ao Wicca na internet, mas se possível use o máximo de prudência.
27 - Pode-se recomendar alguns livros de apoio para um praticante solitário?
R: Na opção de livros sobre Wicca tem de se ter sempre em mente dois contextos editoriais, que correspondem a duas filosofias completamente diferentes, quer de ordem comercial quer de escrita e escola: por um lado existem aqueles livros que são produtos comerciais do tipo "literatura de supermercado", que os intelectuais americanos designam por "trash literature", e temos por outro, trabalhos literários marcados por uma preocupação de raciocínio e profundidade esotérica no Wicca.
No primeiro caso, tem toda a série de publicações de Silver Ravenwolf, Scott Cunningham, Gerina Dunwich, etc, e que estão para o Wicca como um vinho a martelo está para um bom e delicado vinho de marca.
No segundo caso tem livros excelentes e sofisticados como os de Vivianne Crowley, de Stewart Farrar, Ronald Hutton, Chas Cliffon, Starwauk, etc.
Em todo o caso, um praticante solitário não costuma seguir um receituário nem um catecismo ritualista, e é importante estar muito bem informado sobre as ultimas pesquisas históricas sobre Wicca e os trabalhos actualizados de etnografia, meditação, ritual, etc. Abaixo apresento alguns livros essenciais para leitura de um estudante hedgewitch:
>> Livros Fundamentais para Estudo de Wiccans Solitários:
"Hedgewitch, a Guide to Solitary Witchcraft", de Rae Beth,
"The Spiral Dance", de Starhawk,
"The Witch Alone", de Marian Green.
"Principles of Wicca", Vivianne Crowley.
"Witchcraft Today", Gerald Gardner.
"The Meaning of the Witchcraft", Gerald Gardner
"Witchcraft for Tomorow", Doreen Valiente.
"Essential Wicca", Paul Tuitéan & Estelle Daniels
>> Coadjuvantes Recomendados no Treino Meditativo Wiccan:
"Meditation", de Naomi Humphrey.
"The Light of Earth.", de R. J. Stweart.
>> Estudos Eruditos que Interessam a um Wiccan:
"The Triumph Of the Moon", de Ronald Hutton.
"The Pagan History of the Europe", Prudence Jones.
"The Wiccan Routes", Phillip Heselton.
"The Pagan Religions of the Ancient British Isles", Ronald Hutton.
"A Religião Popular Portuguesa", de Moisés Espírito Santo.
>> Colectâneas e Enciclopédias:
"Witchcraft Today" (3 vols), Shas Clifton.
"Voices of the Godess", Vários Autores.
"The Encyclopedia of Witches and Witchcraft", Rosemary Ellen Guilley.
>> Livros para quem pretende um dia ser iniciado num conventículo tradicional:
"Wicca, The Old Religion", de Vivianne Crowley.
"Wiccan Mysteries", de Raven Grimassi.
"The Spell of Making", de Blacksun.
"Eight Sabbats for Witches", de Janet & Stewart Farrar.
"What Witches Do", de Janet & Stewart Farrar.
"The Witches´ Way", de Janet & Stewart Farrar, Phoenix.
>> Livros de Wicca Coca-cola
>> A literatura "wicca coca-cola" não é recomendável por ninguém que tenha do Wicca uma concepção iniciática. Em virtude do seu nível de analfabetismo esotérico e o carácter distorcido da suas opiniões, sobretudo os livros de Scott Cunningham , Silver Ravenwolf, Gerina Dunwich, Patricia Telesco, etc., são divulgadores de uma forma completamente errada e desajustada da realidade iniciática.
Livros de autores portugueses como Márcia Frazão, Paulo Coelho, Garcia Baptista, enquadrados habitualmente no tipo de «literatura para dona de casa», além dos seus conteúdos serem inconsistentes e incongruentes são um gasto inútil em dinheiro sob o ponto de vista literário e esotérico.
Entrevista a Gilberto Lascariz Parte 2
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