Entrevista a Gilberto Lascariz Parte 1

23-02-2011 12:34

Como primeiro tópico do blog achei por bem fornecer uma entrevista feita a alguém que aprendi a admirar e a entender.

Como muitas pessoas que se iniciaram na vida pagã eu também já li o chamado trash wicca. Mas fui, como é normal com as pessoas que não se contentam com respostas rápidas, aprofundando os meus conhecimentos o que me permitiu passar esta fase má e pouco produtiva.

Aprendi a gostar de pessoas mais dificeis de ler e de, por vezes, entender. Gilberto Lascariz é uma dessas pessoas.

Desde que adquiri um dos seus livros "Ritos e mistérios secretos do Wicca" que percebi a grande preocupação dele em clarificar a pasta homogenea de ideias idiotas e outras bem profundas em que mergulhou a wicca. Ele quiz separar o errado do certo e aprecio-o por isso mesmo.

O meu receio às vezes é contribuir para todo este mar de confusões que já existem ao ter criado este website...

Sem mais delongas segue a cópia da entrevista retirada do site portugalparanormal:

1 - O que é o Wicca?
R: Essa é uma pergunta muitíssimo simples mas muito complexa para poder ser respondida sob forma de sabatina. Se você procurar aqui na internet encontrará basicamente sempre a mesma resposta padrão, repetida até ao infinito, e que pode ser definida assim: o Wicca é uma religião neo-pagã que reverencia e celebra as Forças da Natureza, representadas pela interdependência criativa do Deus Cornudo e da Deusa Mãe, e cujas origens nasceram da prática da bruxaria antiga e neo-pagã. Esta resposta estaria em princípio certa. Mas só em princípio! Porque ela escamoteia aquilo que é essencial no Wicca: o facto de ela ser um sistema iniciático. Por isso, se eu quisesse dar uma resposta directa e sintética eu responderia de outra maneira: o Wicca é um sistema mágico-religioso de características iniciáticas, que se enraíza na prática europeia da bruxaria arcaica e neo-pagã centrada á volta do Deus Cornudo e da Deusa da Lua, e que toma o processo de Metamorfose da Natureza e dos seus Luminares como matriz do próprio processo de metamorfose cognitiva da Alma. Esta seria a resposta completa, na minha opinião!

2- Como surgiu o Wicca?
R: O Wicca surgiu publicamente através do livro Witchcraft Today em 1954. O seu autor Gerald Gardner é considerado o fundador de uma prática de bruxaria neo-pagã cujas origens lendárias advinham desde a antiguidade pré-clássica e havia sobrevivido á perseguição cristã. Gardner veio a denominá-la pela expressão oriunda do inglês antigo Wicca. Mas esta é a origem lendária do Wicca! As suas raízes históricas apoiavam-se na corrente da etnografia vigente na Escola de Cambridge e de que a arqueóloga Margaret Murray durante muito tempo fez eco. Gardner havia afirmado que a prática do Wicca havia sido preservada em New Forest por um conventículo de bruxaria em que fora iniciado em 1939 através de Dorothy Clutterbuck. Embora a escritora Doreen Valiente houvesse provado a existência de Dorothy Clutterbuck depois da dúvida levantada quanto á sua real existência pelo historiador Jeffrey Russel, foram muitos os iniciados que exultaram de felicidade diante desta prova admitindo precipitadamente que toda a historia publicitada por Gardner fora pura verdade histórica. A década de 90 foi fatal para esta crença ingénua mantida pelos iniciados wiccans através das investigações de dois historiadores iniciados: Aidan Kelly e Ronald Hutton. Eu admito  que Dorothy Clutterbuck terá funcionado para o Wicca da mesma maneira que Anna Sprengel para a criação da Golden Dawn: um mito fundacional! A investigação de Ronald Hutton provou que a personagem histórica Old Dorothy Clutterbuck embora tenha realmente existido, como Doreen Valiente veio a provar antes, ela não corresponde á personagem Old Dorothy. Na sua vida real ela não era uma bruxa inspirada mas uma beata cristã e burguesa, mecenas do partido conservador local e instalada numa sociedade convencional para se poder identificar com uma prática mágico-religiosa contra cultural de fundo ante-cristão.

3 - Quais são os Princípios Basilares do Wicca?
R: Há um conjunto de princípios basilares que são a sintaxe de toda a actividade mágico-religiosa wiccan. Costuma-se dizer erroneamente que são Princípios de Crença no mesmo sentido em que é usado nos Artigos de Fé das religiões monoteístas! Não temos crenças em que se possa sentar preguiçosamente e dizer na base disso: «eu sou wiccan porque acredito nisto e naquilo»! Se for á capela da paróquia lá poderá encontrar cabeças atulhadas de crenças religiosas! Lamento desiludi-lo com esta informação: a crença é uma desculpa fácil para parecermos aquilo que realmente não somos. Não deveria ter lido a maçadora «literatura de supermercado» de autores tipo Scott Cunningham que fala tanto de crenças no Wicca...e que só existem como crença na sua ingenuidade mental.
A ideia da existência de Principias de Crença surgiu no entanto em 14 de Abril de 1974 com a declaração "Os Princípios de Crença Wiccan" formulada pelo Concilio de Bruxas Wiccans, uma organização ecléctica de wiccans americanos. A partir de então ela aparece sempre transcrita em muitos livros eclécticos de wiccans americanos e tornou-se a base de muitas organizações wiccans á volta do mundo. Mas no Wicca não há Princípios de Crença como nas religiões actuais, mas apenas contextos para uma experiência espiritual e diversos Paradigmas espirituais. O contexto que permite o eclodir dessa experiência é determinado pelo treino meditativo e os rituais.
Poderia dizer que os Princípios Basilares são como as regras de trânsito no código da estrada e que permitem viajar ao cerne do universo com um conjunto de técnicas místicas específicas. A paisagem que vai emergir nessa viagem depende muito de você. É essa a sua liberdade. É esse o encanto da "viagem". Existem no entanto um conjunto de Paradigmas que servem de matriz á religiosidade wiccan e que são os seguintes:

   1. A existência de uma Polaridade Universal, raiz de todos os processos de Vida e de Consciência, representados pela interacção criativa entre uma Grande Deusa Arcaica e um Deus Cornudo.
   2. A santificação da Natureza como espaço de imanência do divino e a celebração dos seus ciclos cósmicos de metamorfose.
   3. A prática da Magia e o desenvolvimento de Poderes Parapsíquicos.
   4. A relevância da Reencarnação na perspectiva de um parentesco por linhagem de sangue ou por linhagem corporativa e fundamento de uma evolução espiritual específica.
   5. A valorização de um sistema de Iniciação na Tripla Dimensão do Ser Humano.

Estes Cinco Paradigmas podem ser organizados dentro do Pentagrama, que é a Matriz Mística da nossa Tradição, como no diagrama abaixo.

Utilize-o como motivo de meditação. Por exemplo veja como o conceito de Polaridade Divina em cima se liga pelo braço do Pentagrama simultaneamente, em baixo, ao Principio da Iniciação (no elemento Fogo)e da Natureza (no elemento Terra), sugerindo serem "lugares" onde eles preferencialmente se manifestam. O espaço exterior da Natureza Selvagem e o interior do Ser Humano parecem ser esses "lugares" não acha? Observe também como ao ser inscrito num circulo o Pentagrama lhe estimula outros caminhos de reflexão: veja a Iniciação relacionada com a Natureza em baixo, formando com a Polaridade divina em cima um grande triângulo de fogo. Isto tem um significado sabe? Agora note, por exemplo, que essa Polaridade Divina para atingir o ponto de manifestação da Natureza em baixo atravessa o ângulo associado á Magia e ao elemento Ar. Isso quer dizer alguma coisa não acha? Use este esquema como meditação e se quiser fale-me dele. Será divertido e instrutivo para ambos!

4 - Qualquer pessoa pode ser um/a wiccan mesmo se conservando cristão ou muçulmano, por exemplo?
R: Não. Absolutamente não. Se é um cristão consciente e respeita o compromisso que ainda tem com a sua religião só lhe tenho a dizer o seguinte: não pode ser um wiccan! Os fundamentos teológicos do cristianismo, seja qual for a sua confissão, baseiam-se em três premissas de crença para nós inaceitáveis:
    * A existência do pecado
    * E a necessidade de salvação,
    * Associado à predominância de uma concepção monoteísta e transcendente da divindade.  

   Ao contrário também da crença religiosa generalizada num Deus transcendente á natureza e á humanidade, o wiccan tem uma concepção imanente da Divindade: encontra-a sobretudo nos lugares selvagens da natureza e não dentro duma igreja ou através de um livro revelado e omnipotente, e considera os espaços naturais ainda não domesticados pelo homem como lugares santificados, verdadeiros santuários, animados por Forças Espirituais sensíveis e tocáveis pelo nosso espírito. O nosso "Livro Revelado" é o Livro aberto da Natureza, na metamorfose das suas estações e com todas as suas criaturas: são elas os nossos Mestres, mais do que os livros proféticos e obtusos de uma religião.
   O mesmo se aplicaria a um muçulmano, com a gravidade maior do Islão nutrir uma profunda e repugnante misoginia em relação ao feminino. Nunca um cristão ou um muçulmano poderá ser um wiccan, como da mesma forma não poderá ser simultaneamente budista, existencialista ou ateu! Se é cristão e respeita si mesmo e à sua fé, por muito fundamentalista e obsoleta que ela seja, então faça o favor de não pretender ser wiccan. A Divindade é como a metáfora de um cristal de múltiplas facetas: todas elas podem ser um caminho de Luz para a profundidade de si mesmo! Mesmo que a sua religião possa ter sido um dia mais um caminho de treva, crueldade e crime, do que um caminho de Luz! Talvez o problema não esteja na Divindade que adoravam, mas nos homens imperfeitos que eram seu adoradores!

5 - Mas então qual a diferença entre o Wicca que, por uns é definida como uma prática religiosa e, por outros, como uma prática iniciática? São duas formas de wicca? São a mesma wicca?
R: Na realidade são duas formas de wicca: um é o Wicca Iniciático, que é o seu sentido «strictu sensu», e o outro é as múltiplas formas de Néo-Wicca ou Wicca Ecléctica com preocupações de índole mais religiosa, cívica e cultural.
   O Neo-Wicca ou o Wicca Ecléctico, emergiu muito mais tarde do que o Wicca, precisamente em meados dos anos setenta nos Estados Unidos com a emergência das seguintes iniciativas:
    * A convenção americana Gnosticon da principal iniciativa de Carl Llewellyn Weschcke, o fundador da grande editora Llewellyn  Publications;
    * A aceitação dos Princípios de Crença Wiccan em 14 de Abril de 1974 como plataforma religiosa dos wiccans americanos e o estímulo a uma atitude aberta e experimentalista de todo o tipo de ritual «wiccan style».
    * O desenvolvimento de métodos mais abertos de pesquisa mágica wiccan através da criação do Circle Santuary em 1975 pelos ex hippies Selena Fox e Jim Allen.
    * A criação em 1975 do Pagan Spirit Gathering no Wsconsin por Selena e Jim que se tornou o primeiro acampamento wiccan e a criação em 1977 do Pan-Pagan Festival pelo Midwest Pagan Council em Ilinois.
    * O sucesso editorial dos livros Spiral Dance de Starhawk  e Drawing Down the Moon de Margot Adler ambos publicados em 1979 e que gerou uma onde de experimentalismo wiccan fora do patrocínio dos conventículos tradicionais.

   O Wicca desde a sua fundação por Gerald Gardner era um sistema iniciático fechado, com um sistema de graus que ilustrava os processo evolutivos da Alma do Iniciado. Isso não o impediu de dizer: «o Wicca é uma religião». Mas na cultura dos cenáculos esotéricos a quem ele se dirigia isso queria dizer uma «Religião de Mistérios», o que não quer dizer a mesma coisa que Religião!

    A partir dos anos setenta emergiu gradualmente nos Estados Unidos um novo tipo de Wicca, mais aberto e interessado em evoluir para formas mais sofisticadas de práticas neo-pagãs e menos dependentes dos modelos novecentistas de Magia. Isto deve-se ao facto de nos anos setenta os livros de Gerald Gardner serem completamente desconhecidos do publico americano e só vários comentadores de segunda vaga e conhecendo por vezes o Wicca de fora haviam sido publicados nos USA. Nos anos setenta só Sybil Leek e depois Raymond Buckland eram conhecidos do público americano como tendo alguma proximidade interior ao Wicca. No entanto o primeiro livro de Sybil The Diary of a Witch já estava disponível ao grande público americano em 1968. O livro What Witches Do de Stewart Farrar havia sido publicado no Reino Unido em 1971 mas passou despercebido pelo wiccan americano ecléctico.
   No entanto, a partir dos anos oitenta as leituras dos livros escritos pelos iniciados gardnerianos e alexandrianos, como Doreen Valiente, Stewart Farrar e Raymond Buckland, divulgaram muitas das bases de trabalho de conventículo tradicional e emergiu uma forma popular de Wicca baseada no plágio destes textos.
   Basicamente ela começou nos inícios dos anos setenta com o movimento Pagan Way criado por Joseph Wilson e Ed Ficht e a sua valorização de uma forma de Wicca enraizado em encontros na natureza e em workshops de trabalho mágico com ela. Neste sistema aberto ao público em vez dos velhos modelos convencionais de iniciação do Wicca era preferido os processos naturais de trabalho meditativo com as forças da natureza de forma a elas induzirem na psique do indivíduo uma forma de Iniciação natural. Este movimento constituiu também uma forma de adaptar e transformar materiais iniciáticos ás necessidades de consumo publico mais básicas, criando matrizes de celebração ritual abertas à possibilidade de ser adaptadas por qualquer pessoa ás suas inclinações místicas individuais ou de grupo. Foi esse sistema que serviu de base nas celebrações ao ar livre em muitos festivais neo-pagãos pela Califórnia e pelo resto dos Estados Unidos.

   Nos anos setenta a Califórnia era, então, um verdadeiro alfobre de génios á solta como Allan Watts, Fritjof Capra, Carlos Castaneda, J. B. Rhine, Abraham Maslow, e muitos outros, tornando-se num pólo de efervescência místico-cientifica associada com pesquisas ousadas nas zonas mais ocultas do cérebro e a base de experiências comunitárias de vida em oposição aos modelos de sociedade vigente. Mas também do desenvolvimento de estados alterados de consciência através do LSD e de técnicas meditativas xamânicas, e que veio a desembocar no Instituo Esalem e na Gnose de Princeton. Foi este novo impulso espiritual na humanidade para criar um sistema onde religião, ecologia e ciência, fossem facetas de uma mesma realidade cognitiva, associado ás grandes mudanças nos meios culturais underground da juventude americana e universitária, que propiciou a emergência de uma religiosidade new age e, por consequência, de um sistema wiccan de características populares que satisfazia as suas necessidades de integrar simultaneamente o ambiente e o ser humano, num todo ecológico e espiritual, e com meios intensos mas simples e acessíveis.
   Foi neste contexto que naturalmente emergiu o «wicca de supermercado» pela mão de Scott Cunningham, e que desemboca hoje em autores como Silver Ravenwolf e Gerina Dunwicxh. Mas o Wicca aparecia, também, como a primeira religião ecológica: respeito e defesa do mundo natural, valorização das energias corporais, a alegria e o prazer como elemento constituinte da sua religião, defesa da igualdade jurídica e de oportunidade de vida não só de homens e mulheres mas de todas as formas de vida. Parafraseando o fundador da "deep ecology", o Wicca propiciava a cada pessoa neo-pagã a possibilidade de poder «viver e pensar como uma montanha», isto é, em contacto íntimo com o mundo natural. É esta tendência á dissolução emotiva no meio natural e nas forças de vida, numa perspectiva de auto-regeneração, que define a religiosidade neo-pagã. Dele estava definitivamente arrumado para os cantos escuros do esoterismo o seu carácter iniciático. Porque era muito mais complexo, menos atractivo a uma população que pretendia um consumo rápido e superficial de religiões alternativas, e demasiado transgressivo para o pudor presbiterado com a sua valorização do Deus Cornudo e das energias sexuais.
   A Iniciação é o corolário e a razão de existir do Wicca Tradicional. Ela está no pólo oposto de um «misticismo sem suor» típico do eclectismo wiccan e visa a mutação radical do ser humano na sua tripla constituição arquetípica: do pensamento, do sentimento e da vontade. O caminho dessa integração iniciática é diferente dos outros sistemas iniciáticos de fundo cristão como os rosacrucianos e que visam a sublimação e desmaterialização. No sistema wiccan a iniciação «imita» os processos arquetípicos de metamorfose da natureza como matriz cósmica da metamorfose espiritual. É em virtude desta «imitação» ou mimesis da natureza que o Wicca é também conhecida pela expressão "A Arte".
   No wicca tradicional o caminho mágico é «a rebours», como se dizia na antiga bruxaria: voltar atrás numa espécie de eterno retorno através da escala evolutiva das espécies que trazemos ainda connosco, desde o estado de ser civilizado actual até aos estratos atavísticos e ao inconsciente antropológico, fazendo brotar desta forma umas ser tão completo e integrado quanto possível á imagem e semelhança da metáfora do Deus Cornudo. É neste sentido de recuo antropológico, sintetizado na tese mágica do "a rebours", legitimado pelas teorias das sobrevivências na etnografia e da geologia durante a época de Gardner e mais tarde pela psicologia reichiana, o psicodrama, as psicoterapias do grito primal e as técnicas de bio-feedback, que está o segredo Mistérico da Wicca como herdeira da Bruxaria Arcaica!

6 - Mas, mais uma vez, porque ainda não entendi bem: o que distingue, numa imagem mais terra a terra, a faceta iniciática da Wicca e a faceta religiosa da Néo-Wicca?
R: A dimensão religiosa do Neo-Wicca ou Wicca Eclético implica a dimensão emocional e ética da religiosidade neo-pagã: você está ao ar livre, à volta de uma grande fogueira, entre gente simpática e desinibida, dançando ao som de tambores, flautas e gaitas de foles, no meio da floresta, e de súbito tem a sensação que passou a barreira do tempo: passa de um tempo profano de rotina unidimensional para um tempo mítico e aberto que abarca o passado e o presente, e lhe dá a sensação de infinitas possibilidades. Esta é uma sensação bela e refrescante, ausente das religiões massificadoras! E profundamente terapêutica! Mas com o tempo ela desvanece-se no vazio trepidante do quotidiano e acaba por ficar dela apenas a sensação passageira de uma comichão metafísica, num dia de luar e no meio do bosque, entre gente formidável.
Mas há uma dimensão ética nesta religiosidade também! E ética tomada aqui no sentido de uma substituição consciente dos valores cívicos e prático-utilitários por valores que podem criar, num dia distante, a oportunidade de uma experiência de abertura ao sagrado! Essa Ética transparece na prática de atitudes ecológicas alternativas: uso de formas de energia não poluente, da agricultura biológica, terapias naturais, de técnicas meditativas, de uma nova abordagem da sua sexualidade na perspectiva sacral, tudo numa deliberada tentativa de auto-reeducação da percepção e de prática consciente de um panteísmo místico. Não só ao nível dos conceitos, mas fundamentalmente dos comportamentos e das decisões mais básicas de vida, que o tocam de forma mais concreta e imediata: na maneira como comemos, amamos, nos curamos, trabalhamos, nos relacionamos, rezamos e... morremos! Este elemento de atitude panteísta que a distingue do comportamento cívico de um ambientalista! Claro que isto não o/a torna num wiccan. Conheci ingénuas adolescentes que se vestiam de negro como Morganas de um filme televisivo serie B e se envolviam de diáfanos vestidos florais como se fossem fadas, eram vegetarianas, participavam em manifestações contra touradas, liam Scott Cunningham e faziam uns piqueniques na Serra de Sintra enquanto macaqueavam rituais tirados dos livros de Silver Ravenwolf e só por isso se auto-consideravam bruxas wiccan!
   Ser wiccan em matéria religiosa tem sido uma encenação misto de Benneton e contracultura, um pretexto saudável para beatas intoxicados de santidade new-age irem a celebrações e cursos de formação neo-pagã e wiccan como quem vai a uma missa ou á sinagoga. É isso o que você pretende? É o que se passa nas muitas igrejas wiccan na América que têm serviços religiosos como qualquer capela católica ou sinagoga judaica! Têm os seus sacerdotes e sacerdotisas como os outros têm os seus rabinos e os seus bispos, têm solenes rituais por vezes tão animados como um serviço religioso dos Hare Krishna, e estão legalizados como organização religiosa em alguns estados americanos como uma qualquer outra religião ou actividade comercial: seja a de Buda ou a de Bill Gates, de Cristo ou do Mc Donnalds, de Jeová ou da Benneton!
   O Wicca não é, em rigor, uma religião embora alguns americanos, com inclinação mais prática do que evangélica, a tenham tentado transformar num culto religioso neo-pagão semelhante, estruturalmente falando, ou a qualquer outra religião publica. A vantagem seria os meios jurídicos de defesa contra a difamação e humilhação dos wiccans pelos cristãos fundamentalistas americanos e a sua expulsão sem justa causa de escolas públicas e privadas onde são professores, como tem acontecido ultimamente nos USA.
   O Wicca, no entanto, para ser uma vivência transformativa implica a vivência de um intenso estado de religiosidade! Mas as duas coisas não são necessariamente a mesma coisa! Há algumas subtilezas que se devem aqui realçar, cujo desconhecimento tem levado a uma série de apressadas e inconclusivas afirmações. Trata-se da questão de definir o que é a religião. Uma religião é um culto público baseado na crença de um mundo sobrenatural com o qual é possível estabelecer uma relação de comunicação ou comunhão psíquica através de um conjunto de observâncias internas e externas, éticas e rituais, numa atitude de subalternidade, reverência e devoção. Isto põe logo um problema:

    * O Wicca não é uma crença mas um corpo de «Paradigmas» que são susceptíveis de, segundo um treino específico, desencadear uma experiência pessoal directa das forças supra sensíveis, pensadas estarem relacionadas com os cultos dos Deuses Coníferos e as Forças da Natureza!
    * O Wicca dá uma grande importância á Prática e ao papel da Vontade, dois aspectos próprios da Magia, como factor determinante da experiência mística, enquanto a Fé, que é constituinte fundamental da religião, é para ela totalmente irrelevante e não estimulada.
    * O Wicca nunca foi um culto público mas uma actividade mágico-religiosa privada, reunida em forma de clã místico e iniciático, fechado e privado, tipo "Loja" de Mistérios e desenvolvida entre pessoas unidas por laços pessoais de afectividade cerimonial, denominado por "Coven" ou Assembleia.
    * O Wicca não aceita uma postura de reverente subserviência nem devoção vegetativa aos seus Deuses, nem aceita a opinião teológica do pecado e da salvação característico do Cristianismo e do Islamismo, ou mesmo a crença na ilusão do mundo da natureza, como nos cultos orientais do Hinduísmo e do Budismo. Ninguém precisa de ser salvo, apenas de se desenvolver, crescer e transfigurar! E este mundo natural não é uma ilusão, mas uma bela e por vezes ameaçadora manifestação de forças cósmicas cujo espectro vai do mais denso até ao mais subtil e divino, num eterno continuum sem ruptura nem quebra. 

E para baralhar tudo isto,
    * o Wicca não tem um sistema dogmático de crenças;
    * nem um catecismo ou um livro revelado;
    * e nem uma hierarquia superior elitista de bispos e cardeais, rabinos e ayatolas, nem um Papa Todo Poderoso. 
   O Wicca tem um sistema de construção ritual, alguns paradigmas, e os bosques, mares e campos da terra. A sua finalidade é criar um espaço arquetípico, um novo complexo mítico e existencial, onde possa eclodir o sagrado no cerne da pessoa humana em sintonia com a natureza. A maneira como isso acontece...bem...depende da idiossincrasia de cada ser humano! A religiosidade wiccan não é nem uma incubadora colectiva nem uma sanduíche, onde se pode meter a humanidade inteira sem excepção. É essa a sua força, mas também a sua fragilidade. A fragilidade de se poder dissipar de um dia para o outro se o ser humano não tiver a coragem de passar da fase da religião de formigueiro para a religião individual e responsável.

 7 - Acabou de falar sobre várias formas de organização social dos wiccans: clã, coven e assembleia. Mas o que tudo isso significa? Há alguma diferença entre elas?
R: Actualmente pode-se dizer que existem as seguintes formas de organização social dos wiccans:
    * em forma de Coven ou Assembleia (socialmente fechada e de índole iniciática)
    * em regime de Circulo (socialmente semiaberta e de índole religiosas)
    * de forma associativa (totalmente aberta segundo determinadas regras de ingresso e de índole jurídica). 

   A expressão Coven é muito antiga e é de origem latina vindo de "conventus", podendo-se traduzir pelas expressões portuguesas de conventículo ou conciliábulo, aliás designações com uma grande carga poética e que vem mencionada nos anais inquisitoriais espanhóis e foi apropriada por Goya num dos seus quadros durante a sua "fase negra". Essa é a expressão tradicional. O seu uso parece ter emergido das confissões da bruxa escocesa Isobel Gowdie, mas a sua generalização moderna no Wicca vem sem dúvida alguma das publicações pseudo-antropológicas de Margaret Murray.
   A sua estrutura corporativa apresenta-se sob a forma de família ou clã, em que as pessoas estão unidas por um pacto social entre si e um pacto espiritual com determinados princípios espirituais representados pelos Deuses patronos do Coven. O juramento de iniciação visa dar forma jurídica a esse pacto, a esse elo da cadeia entre o visível e o invisível. A sua regra é "perfeito amor e perfeita confiança" e esta aplica-se por isso somente ás características de um Conventículo. Daí o seu número ser muito pequeno e a sua cooptação ser muito restrita. Já vi escrito há poucos anos na internet, mais precisamente na Wtches Voices, por uma auto proclamada "HP" portuguesa que o seu Coven podia sustentar 400 pessoas, o que aliás é um absoluto disparate! Também vi já a expressão coven usada na net para a reunião de pessoas de inclinações filosóficas e religiosas heteróclitas, unidas por um laço de afectividade e que se encontram regularmente para cerimónias de índole mediunística ou religiosa, o que é um uso inculto, abusivo e ignorante desta expressão.
   O que define o coven ou conventículo é o pacto iniciatório e deve ser usado, por isso, apenas em agrupamentos do Wicca com regularidade iniciática e que existem num duplo universo: humano e transhumano.
   A forma de organização do Circulo, ao contrário do Coven, tem tendência a ser mais flexível e é aberta.
   Um Circulo é semelhante a um grupo de estudos de bons amigos que se reúnem em casa de um deles enquanto conversam e celebram animadamente, estudam e comentam os livros que leram. São por princípio tão abertos a estranhos quanto o pode ser um grupo de camaradas muito íntimos: depende do feitio e da reacção do grupo. Num Circulo pode haver um espírito grupo - ou espírito de grupo - muito forte, mas a diferença com a "alma grupo" de um conventículo é este ultimo se basear num pacto iniciatório com o mundo suprasensível.
   O Circulo não tem qualquer característica iniciatória e são reuniões pedagógicas e religiosas.

   A partir dos anos oitenta face á necessidade de unir os membros wiccans dispersos pelo mundo criaram-se também organizações que não tendo a função iniciática como um Coven, tem a função de estabelecer regras comuns de acção informativa ao publico e em particular á imprensa, criar mecanismo de defesa sob o ponto de vista jurídico de membros maltratados, organizar conferencias, adquirir livros a baixo custo, etc.

   Há várias organizações dessas, das quais a mais importante a nível europeu é a Pagan Federation. Ser membro desta organização não implica que você seja um iniciado regular dentro duma tradição wiccan ou qualquer outra neo-pagã, como o druidismo ou esatru. Basta que se conforme a um conjuntos de pequenos princípios neo-pagãos, demasiado gerais, para ser membro, seja ou não iniciado. Daí o carácter extremamente difuso desta organização, que não representa com rigor as organizações regulares do Wicca, mas apenas membros que se auto-denominam assim. Isto leva a um grande problema de saber o que realmente representa a PF em termos práticos além dum universo diluído de crentes neo-pagãos, a maior parte das vezes baseado em afirmações sem qualquer consistência religiosa ou cultural.
   A tendência no futuro será, julgo eu, separar as águas: organizações que representam a massa amorfa de neo-pagãos que se auto denominam wiccans e organizações unicamente vocacionadas para representar Covens regulares.

   Existem outras organizações também, como a Assotiation of Hedgewitches, mais vocacionada para abranger os solitários wiccan do Reino Unido, associações wiccan com empenho ecológico como o Dragon Project, e o muito importante Covenant of Artemis.

8 - A que se deve essa vossa constante exaltação das Forças da Vida como base motora do sistema mágico-religioso da wicca, quando a realidade nos revela a permanente presença da morte por todo o lado com as suas guerras, doenças incuráveis, cataclismos, genocídios, etc? Não acha isso uma contradição, para não dizer uma ingenuidade, em quem tanto valoriza espiritualmente a natureza?
R: Em primeiro lugar, essa valorização deve-se ao contexto histórico de emergência do Wicca na segunda metade do século XX : a Guerra Fria, a Guerra do Vietname, os problemas ambientais, as questões do nuclear, etc. Os anos setenta foram em particular um momento de luta, pelas gerações de vanguarda da altura, contra aquilo que na sociedade eram forças de aniquilamento e morte representadas por instituições políticas e convenções sociais. Associado a isso, uma multiplicidade de intelectuais saídos dos meios da cultura hyppie e envolvidos com a cultura pop reagiram sobrevalorizando as forças da Vida e uma Ética de regresso à Natureza, com a sua valorização da sexualidade, da musica, de formas pacificas e ecológicas de organização política e da prospecção livre das profundezas da mente, através de técnicas muitas vezes recolhidas nos povos mais primitivos, e de que o mito Carlos Castaneda é o mais celebre.
   A supervalorização das Forças da Vida, em particular representadas no Mito Feminino do Wicca Ecléctico, acabou por funcionar como uma ideologia motora da acção política, artística e espiritual, e é sem duvida Starhawk a primeira a pôr a questão da necessidade de uma acção cívica directa em grande escala pelo wiccan e Monique Sjöo e Marija Gimbutas a lhe fornecer o suporte pseudo-arqueológico.
   Este paradigma teológico-político está bem testemunhado no Duo Litúrgico representado pela Deusa da Fertilidade e o Deus Cornudo, e na forma como este último foi inferiorizado até atingir um papel secundário de Deus Consorte e Fecundador, Senhor do Reino dos Mortos, e por vezes até completamente eliminado como nas assembleias feministas.
   De certa maneira a ideologia feminista que utilizava os materiais wiccan inverteu a ordem de valores patriarcais no panteão da bruxaria neo-pagã, numa espécie de revanche á Jeová de Saias, forjando uma Deusa Omnipotente com um Deus semi-castrado. Foi preciso algum tempo para que o Deus Cornudo ganhasse de novo o seu papel fundamental sob o disfarce do Deus Verde, o Grande Iniciador dos Bosques, do Poeta e do Ecologista por excelência. Figuras como Pendarween, na esteira de Emerson, refugiaram-se nos bosques e testemunharam a sua existência como um impulso de iniciação e a Comunidade de Findhorn, na Escócia, nos fins dos anos sessenta, está associado á sua emergência como princípio motor espiritual de uma nova relação com a Terra.
   Mas por detrás da Força da Vida está inevitavelmente a Força da Morte que abre espaço e cria a tensão dinâmica para que ela possa eclodir, germinar e crescer. Sem a força da morte a vida é eterna gestação!
   Contudo quando falamos e exaltamos as Forças da Vida estamos sobretudo a lembrarmo-nos da planta arquetípica que Goethe estudou. A Planta como metonímia da natureza e de seus ritmos etéricos é o simétrico organísmico do ser humano segundo a Antroposofia, e que com o seu processo de crescimento em fases cíclicas de retracção e expansão através da progressão do caule e da folha, ilustra para nós wiccans todo o processo iniciático que encontra na morte a metáfora viva do processo de transmutação.
   O processo de iniciação wiccan é primeiro um encontro com as forças de vida representadas pelo primeiro grau iniciático e depois um encontro com as forças da morte que destroem o nosso velho e padronizado ego. Por isso é que o iniciado de primeiro grau é um Bruxo e Sacerdote: ele torna-se o servo das forças da vida. Sacerdote vem etimologicamente do latim sacere, isto é, servir. É por isso também, que o Iniciado de segundo grau é um Magister, alguém que tem a mestria, porque passou pela transmutação da Morte. Assim um Wiccam Iniciado de forma tradicional e regular é simultaneamente um Servo da Vida e um Mestre da Morte.
   Isto é muito interessante porque no Wicca Tradicional a Iniciação, ao contrário dos grupos iniciáticos da "velha era", como a tradição rosacruciana e maçónica, o primeiro patamar de transfiguração não é um encontro com a morte mas um encontro com as Forças de Vida...mas as Forças de Vida num estado de excesso tal que pode alargar a nossa percepção cognitiva. Só depois desse acontecimento é que advém então a Morte Iniciática.
   É preciso passar pela Morte, no sentido do êxtase e da loucura que o excesso de Vida propiciou, para emergir mais tarde como um Outro. Esse "Outro" que a Iniciação Wiccan quer alcançar é o Deus Cornudo, sigilo oculto do Andrógino, de Baphomet, e que o poeta simbolista Rimbaud exaltava, no fim do século dezanove, entre a geração simbolista francesa.
   Não poderemos escapar nunca no entanto á morte na medida em que é um processo que não podemos controlar, apenas tentar compreender! A morte a que os wiccans se opuseram durante o período da guerra fria era essa "morte" exaltada pela sociedade injusta, subproduto da ideologia cristã, que por ter desvalorizado o mundo natural e as suas forças de vida criou uma moral puritana que se está nas tintas para a exploração do homem pelo homem, da natureza pela humanidade, e da mulher por religiões misóginas, gerando a pobreza, a poluição e a infelicidade.

9 - Porque não usa pura e simplesmente a expressão "religioso" em vez da expressão "mágico-religioso" quando se refere ao Wicca? Não são duas coisas contraditórias?
R: Como sabe a expressão religião quer dizer re-ligar! Toda a gente sabe isso! Mas genericamente distorce a seguir o seu sentido afirmando que ela religa o homem com Deus. Na realidade a religião liga os homens entre si na base dum princípio moral superior celebrado, por exemplo, na missa: é esse sobretudo o sentido do "sacrifício" que aí é celebrado. Daí a experiência religiosa se ter tornado num conjunto de costumes, normas e convenções sobre o corpo e a consciência.
   Uma Religião existe sempre em função dum grupo, duma comunidade, ou da humanidade, na sua relação com o Transcendente como no Cristianismo. Por isso ele se pretende seu vigilante e evangelizador nas suas reacções múltiplas contra o aborto, o uso de preservativo, nas injustiças sociais, etc. Para a Religião a humanidade deve conformar-se inteira à maneira como ela institucionalmente interpreta a Lei Divina. A Iniciação, ao contrário, existe sempre em função do cerne do Indivíduo e para o Indivíduo. É o Divino dentro do Indivíduo que é a sua única Lei.
   A Religião apoia-se na Fé para impor a sua verdade indiscutível à humanidade e a Iniciação apoia-se na Vontade para acordar a verdade intrínseca do seu destino como inseparável do Divino.
   O que determina o processo de Iniciação é um acto de Vontade dinamizada pelo ritual e a meditação diária que transfigura a consciência do indivíduo fazendo-a resvalar para um outro estado onde pode comunicar com os princípios arquetípicos ou as forças divinas dentro dele e tornar-se assim seu Portador. Daí o epíteto que se dava aos Altos Iniciados antigamente de "Portador do Fogo", isto é, Lúcifer! Ele torna-se o Portador da Luz e do Fogo dos Mistérios do Paganismo Antigo. Pelo contrário, a Religião no seu misticismo depende de um estado de graça concedida arbitrariamente pelo seu Deus, e de um sacrifico completo do seu Eu para o receber por inteiro.
   Visto de outro ângulo poderia dizer: a Religião vê Deus fora de si e apela para a sua misericórdia, o Iniciando vê Deus dentro de si e apela para a sua força de vontade para o desenterrar das profundezas do seu Eu. Tudo gira á volta de si mesmo na Magia, porque os "deuses" e os "demónios" existem dentro de nós, somos nós próprios ao fim e ao cabo, somos essa parte inconsciente e embriológica que existe dentro de nós.
   Lembra-se do pentagrama de que lhe falei há pouco? Ele era o símbolo do Microcosmo desde Agrippa e Paracelso, isto é, o ser humano era entendido como uma miniatura do universo. Isso queria dizer que tudo que existe no universo desde Deus ao Diabo existe dentro de nós, e é aí que os devemos procurar e encontrar. Isto foi uma ideia extremamente revolucionária para a época, quando a Igreja se julgava a voz de Deus, o seu juiz e o seu carrasco. Na Instrução (Charge) da Deusa no Wicca Ela diz: "se o que procuras não o encontras dentro de ti próprio então nunca o encontrarás fora de ti mesmo". Assim, quando eu uso a expressão "religioso" quero dizer que é uma experiência de activa religiosidade determinada pela minha vontade, isto é, produto não da minha fé mas de um processo de experimentação cognitiva que é apanágio da Magia. Ser religioso implica esse elemento de responsabilidade, honestidade e... absoluta liberdade.
   Ao aplicá-la ao Wicca quero dizer que o wiccan tem uma religiosidade que é fundamentalmente mágica: na ressantificação do mundo natural e do cosmo e do seu corpo que é uma síntese desse cosmos e que ele abençoa pela quíntupla-bênção nos ritos. Não é então a vontade do Grande Sacerdote, como vemos na Missa, nem da Grande Sacerdotisa como vemos nas assembleias feministas do Wicca e que apenas reproduzem o padrão cristão mudando o sexo da sua divindade. É a minha Vontade. O meu corpo. O meu espírito.

10 - Que curioso! Vocês wiccans abençoam o vosso corpo? Porque o fazem?
R: Bem...o nosso corpo é a chave de todo o sistema wiccan. Lembra-se daqueles livros de bruxaria chamados grimórios que se vendiam pelas feiras da Europa, do género "O Livro de S. Cipriano"? Num deles, "A Filosofia Oculta", encontra um pentagrama onde está inscrito o ser humano como símbolo do Microcosmo, sugerindo a natureza ígnea, estelar, divina, da humanidade. Quando se olha para a figura dá-nos a maravilhosa sensação de que ele está a planar na folha com os seus cabelos soltos ao vento, ou no ar se quiser!
   Na altura quem planava assim eram apenas as bruxas visionárias e Agrippa, o autor do livro, confessa que o escreveu baseado em viagens através da Europa por onde conheceu bruxas que lhe haviam comunicado o que ele escrevera. Isto além de ser muito interessante era também uma bela provocação à inteligentsia de então, porque Agrippa era um grande erudito, equivalente na altura ás sumidades do tipo Einstein. Toda a gente que se veio a interessar nos séculos vindouros pelo ocultismo viu essa figura, e outras semelhantes, impressas nos livros de ocultismo.
   Nunca ninguém parece ter dado importância ao facto do ser humano ser aí representado... NU! Pensou-se que era uma convenção artística típica do Renascimento. O que era natural: a nudez escultórica e pictórica tinha invadido todas as áreas...até as igrejas, e dela já não davam conta mesmo que tropeçassem com ela de frente. Há anos atrás, quando passei pelo norte de Itália, resolvi visitar a Catedral de Pádua onde está sepultado o nosso Santo António de Lisboa. Para lá entrar foi uma rocambolesca aventura: dois furibundos funcionários saídos dos tempos da Inquisição não me deixavam entrar porque estava vestido com uma t-shirt e uns calções que me desnudavam os braços e os joelhos, e desse modo tão "despido" iria ofender um lugar santo. Vesti uma aparatosa camisola de lã e umas velhas calças que me emprestaram, e lá entrei. Tal não foi o meu espanto ao descobrir que o interior da catedral estava cheio de belíssimas esculturas renascentistas de santos completamente nus, com o falo descaradamente á mostra, belas representações femininas sem uma ponta de roupa que noutra altura excitariam os meus sonhos húmidos, de tal maneira que já não sabia se tinha entrado numa igreja ou num bordel.
   Como vê: não ver a nudez mesmo debaixo do nosso nariz é muitas vezes uma espécie de miopia conveniente. Na cultura ocidental existe inscrito semiologicamente sobre o corpo natural um segundo corpo: o da cultura. O corpo natural volatilizou-se no corpo da escrita, no corpo da ideologia, no corpo político e nacional, enfim, partiu-se em fragmentos irreconhecíveis no abstracto do universo cultural. Esse corpo da cultura, sobre o qual tão sabiamente escreveu o nosso filósofo José Gil, é a parte da sociedade que subsiste em nós e nos determina na nossa maneira de existir e compreender. Mesmo nu o corpo pode estar vestido, isto é, o corpo pode não ser visto como nu mas codificado culturalmente como se fosse um outro corpo.
   Na moda moderna o acto de apresentar um corpo desnudado numa passerelle sem ver nele a sexualidade que nos sobressalta o desejo, foi bem ilustrado num célebre filme de moda quando termina com uma passagem de modelos completamente nus e observados estoicamente pelo público com a mesma indiferença com que estivessem a ser vistos vestidos. Entre um corpo nu que se olha indiferente como ele estivesse vestido, ou um corpo vestido que se sabe que não está nu, não há semiologicamente falando grande distância semântica: são signos iguais. O elemento perturbador da sexualidade pode estar ausente. Mas isto nem sempre é tão linear...e se o é, isso passa-se apenas na nossa mentalidade ocidental.
   Recordo-me que um dia no Cairo ao pôr a questão a um comerciante de antiguidades sobre o dilema sexual do seu povo, o dos homens e mulheres estarem perpetuamente cobertos como se fossem mesas de jantar com toalhas, ele dizia-me irritado: "Ah, você é um europeu, não percebe nada disto, não sabe ver o que existe de excitante numa breve sugestão do corpo na djellaba de uma mulher...nessa brevidade de tempo em que se vê um pedaço de corpo, visto pela sugestão do tecido que se molda ao movimento da sua coxa e ao saltear do seu seio, está a visão do corpo inteiro...e a eternidade que um dia se pode nele alcançar!". Fiquei maravilhado com a sabedoria do venerando homem, que não havia conhecido uma única mulher em toda sua vida de septuagenário!
   Levantar o verniz desta socialização sobre a nudez sexuada do corpo permite que reencontremos o corpo da natureza: o corpo dos instintos e das sensações, o corpo dos sentidos. O Deus dos Bosques que persegue as raparigas pela Primavera para as violar na mitologia grega arcaica, isto é, as iniciar nos mistérios do amor, representa esse instinto que é simultaneamente força de vida e força de transfiguração! O nosso escritor José Régio escreveu um livro muito bonito que se chama: "Andam Faunos Pelos Bosques". É sobre esse alvoroço que o bosque desencadeia no corpo, por que é parente do nosso corpo da natureza, que ele descreve! Isto é muito blakeano: foi Willian Blake, pelo que penso, a inaugurar a ideia de que os cinco sentidos eram o portal cognitivo da alma, e que o corpo no seu estado de nudez era uma analogia do céu. Gerald Gardner veio a designar o estado de nudez cerimonial nos ritos wiccan por "vestido do céu", uma expressão hindu conhecida por dijambara e que ele encontrara na sua estadia no Extremo Oriente nos praticantes dos ritos tântricos. Ou então, apenas a lera nos livros do seu contemporâneo Arthur Avalon.
  O desenho de Agrippa quer dizer o mesmo, "vestido do céu". Se vir bem, está inscrito nele os sete planetas do nosso antigo sistema solar, o "céu" dos alquimistas.
   Num ritual wiccan a nudez é, confesso, de sentido relativo...mesmo quando se está completamente nu. Na verdade, os braceletes que adornam os braços masculinos e femininos, os colares, os olhos maquilhados, alguns até tatuados, cerimonializam o corpo, "vestem-no" de uma maneira tão subtil, que é difícil olhar para um corpo assim desnudado sem ter uma espontânea atitude de reverencia. Saudar o corpo é, assim, um acto religioso (lá voltamos nós ao caso bicudo da religião) de reconhecimento das Forças de Vida de que ele é criado e feito. Só tendo experimentado um dia a religiosa comoção desse acto numa cerimónia wiccan, é que podemos dizer como Diane Stein, em "Casting the Circle", que ele é o acto mais sagrado de todos os actos litúrgicos wiccan. Mesmo para um wiccan completamente solitário, o acto de estar nu/a num ritual onde só ele/a existe e ser ele/a a abençoar o seu próprio corpo, exerce um efeito libertador e terapêutico que nos espanta.
   Isso deve-se ao facto de sobre o corpo existirem uma imensidão de tabus e transgredi-los por um acto religioso equivalente é incrivelmente aliviante e santificante. No tempo de Gardner, os anos quarenta e cinquenta do século vinte, quando ainda nem sequer se podia imaginar a revolução que a Mary Quant e Corréges iriam fazer com a minissaia, era também um acto sacrílego...e por isso ainda mais sagrado. Só experimentando esse sacrilégio poderemos compreender essa sua dimensão de santidade, há tanto tempo esquecida!
   Já o bispo galaico-português Prisciliano tinha, entre nós, praticado a nudez cerimonial com as suas missas desnudadas nos bosques e que tanto escândalo deram aos bispos hispânicos. A sua iniciação por uma mulher chamada Ágape de Barcelona, mostra estranhas semelhanças de modelos de nudez religiosa do século III com alguns dos paradigmas mágico-religiosos do Wicca neste século vinte, aqui mesmo no nosso ignoto Portugal. Daí o seu destino infeliz: o de ter sido condenado e degolado como herege e perturbador da ordem publica cristã.

11 - O que distingue a Bruxaria (Witchcraft) da Feitiçaria (Sorcery) no Wicca? Ou são ambas a mesma coisa?
R: São duas coisas diferentes, mas que têm ambas o seu papel e lugar dentro do Wicca. Comecemos pelo princípio para perceber a questão. Foi, pelo que parece, a egiptóloga Margaret Murray a primeira, no seu marcante livro The Witch Cult in Western Europe em 1921, a fazer a distinção entre Bruxaria Operativa e Bruxaria Ritual, englobando na primeira expressão tudo o que era feitiçaria com o seu rol de encantamentos e feitiços, fossem ou não fossem professados por um cristão, e no segundo o conjunto heterogéneo de rituais, liturgias e crenças exclusivamente pagãs e que haviam sobrevivido, durante os tempos medievais, sob o epíteto global de Bruxaria. Mas este dualismo na bruxaria já tinha sido sugerido no contexto das tribos Azende por Pritchard. De qualquer maneira essa sua opinião veio a influenciar Gerald Gardner.
   Mas, nos países continentais fora do âmbito anglo-saxónico, em particular onde predominam as línguas de base latina, os dois termos têm sido usados como sinónimos. Em Portugal é isso que tem acontecido, excepto por Moisés Espírito Santo que utilizou esta diferença semântica para a abandonar mais tarde, provavelmente por a achar inadaptada ao caso português, onde parece não se poder encontrar claros vestígios pagãos nas práticas da feitiçaria popular. Não é essa, no entanto, a opinião de uma autora como Dalila Pereira da Costa num livro como "A Serpente e a Imaculada" já desde 1984. Os autores mais recentes que se têm debruçado sobre a bruxaria popular em Portugal, como Elvira Lobo em "A Doença e a Cura" ou José Garrucho no seu "As Bruxas e o Transe", continuam ainda a lavrar nesta confusão terminológica.
   O Wicca é o resultado de três elementos integrados, que formam um todo arquetípico de características mágico-filosóficas chamado por Wicca:
    * um sistema mágico-religioso, de inspiração neo-pagã, constituído por liturgias, consagrações, invocações, ritos de passagem, etc., e que constitui o "corpus" semântico do que habitualmente se designa por religioso sob o ponto de vista formal;
    * um sistema mágico-iniciático, que visa a transfiguração do ser humano à imagem do Deus Cornudo, símbolo da completa integração cósmica e natural do ser humano.
    * um sistema de feitiçaria tradicional, em que considera a limitada condição sociológica do ser humano como relativa e procura transformá-la positivamente segundo as leis cíclicas subjacentes aos processo de mudança que vemos na natureza. 
   Se a Bruxaria é a dimensão mágico-iniciática do Wicca, e o seu neo-paganismo é a vertente religiosamente litúrgica, então o uso de placebos rituais em encantamentos, feitiços, talismãs, etc., é verdadeira Feitiçaria, no sentido que ela tem na expressão latina de "faciar", isto é, fazer.
   Nós wiccans estamos convencidos que o destino humano pode ser alterado quando em harmonia com o mundo natural. Não há necessidade de estarmos perpetuamente condenados a uma condição de imutável mediocridade.
   Todos nós wiccans estamos perfeitamente convencidos que não devemos aceitar submissamente a mediocridade da nossa existência e temos o poder de a transformar de forma positiva. A ética wiccan está em fazê-lo em pleno respeito com a integridade física e psíquica não só dos seres humanos mas de todas as criaturas.
   A Deusa da Fertilidade e da Natureza ou, como também se costuma dizer, do Circulo do Renascimento, sugere que podemos mudar os processo de vida padronizados em que vivemos se os tentarmos fazer á luz da sua natureza cíclica e arquetípica, que é sempre mudança como a Lua. Colocar a nossa vida limitada e medíocre dentro desse Circulo de Renascimento é permitir que processos mineralizados e ossificados de vida e consciência se possam flexibilizar, abrir, brotar e renascer num contexto novo: esse é o fim da Feitiçaria por excelência. Por isso, nós invocamos a Grande Deusa pela bela invocação herdada de Shelley e Aleister Crowley: "Pela semente e a raiz, o talo, a folha, a flor e o fruto, nós Te invocamos...".
   O destino humano não é uma pedra nem um fóssil: como uma planta ela pode viver processos de crescimento e mudança sempre renovados em todas as áreas: o amor, o trabalho, a criatividade, etc.
   Veja sempre esta fórmula como essencial para compreender a complexidade do Wicca:
Wicca = Misticismo Neo-Pagão + Bruxaria + Feitiçaria
   Dizer que o Wicca é a religião neo-pagã e a bruxaria uma sua parte acessória, que se pode descartar do seu sistema sem que isso tenha qualquer importância, é uma presunção pudica e sem respeito pela sua identidade, correndo o risco de a dissolver e a descaracterizar em formulas new-age, típicas de «paganismo para dona de casa». A sua força e glamour vem precisamente desta fusão holística.
   Para o perceber, faça o seguinte exercício intelectual: retire por exemplo o segundo e terceiro termo da equação acima mencionada e conserve apenas o primeiro. O que terá? Terá um tipo de neo-paganismo como o Druidismo! Retire depois o primeiro termo e conserve os restantes, o que tem? Terá os exemplos de Hetheanismo e de Xamanismo. Finalmente, retire os dois termos iniciais da equação e fique só com a terceira, e o que tem? Tem apenas todos os tipos de feitiçaria existente em todas as religiões do mundo, independentemente do seu credo, e que pode encontrar todos os anos, por exemplo, representados em encontros de feitiçaria e curandeirismo como os de de Vilar de Perdizes!
   Só o Wicca é o somatório de todas elas!

 

12 - Ah, então o Wicca é mesmo um culto neo-pagão como os que encontrei nos meus estudos de historia e mitologia?

R: O Wicca, volto a realçar, não é um culto no seu sentido religioso mas uma técnica mágico-religiosa de índole iniciática.
   Nem todos os cultos neo-pagãos se enquadram no figurino iniciático do Wicca. Os Deuses da Wicca são os antigos Deuses e Deusas Cornudos. Esta é uma regra importante a não esquecer!
   Tem acontecido que as formas neo-wiccans de fundo ecléctico celebram deuses/as múltiplos/as e variados/as, de panteões heterogéneos, numa espécie de cocktail mitológico. Sob o ponto de vista religioso estas celebrações são formas de divertimento ritual úteis para cimentar os laços de um grupo, mas sob o ponto de vista mágico são nulas: já tentou sintonizar no seu rádio várias emissoras ao mesmo tempo? É impossível não é?
   Por outro lado nunca terá encontrado sequer o culto do Wicca nos seus livros de história. Ninguém sabe ao certo como eram os cultos dos povos agrafos, e mesmo daqueles que usavam a escrita regularmente como os gregos, que são os que conhecemos melhor, ignora-se a forma correcta das suas Religiões de Mistérios e faltam-nos muitos elementos para a sua compreensão até mesmo dos cultos públicos executados pelos seus reis e magistrados.
   O Wicca usa nos seus rituais sistemas de indução da metamorfose da alma do ser humano baseado em regras construtivas de carácter esotérico. Ela é inspirada em fórmulas numerológicas e princípios cíclicos que se encontram em todos os processos cíclicos de mudança da natureza, e que muitas sociedades arcaicas e os construtores de templos medievais usaram. Criar um ritual é mais um caso de engenharia sagrada do que de história das religiões.
   O nosso sistema wiccan baseia-se em critérios matemático-simbólicos que eram aplicados na arte pictórica e arquitectónica sagrada tal como vemos ilustrado no "número de ouro", por exemplo, mas também pelo povos arcaicos como se vê implícito em monumentos megalíticos como Stonehenge.
   Daí a sua designação como Arte ou Craeft da Wicca.
   
13 - Quais as cerimonias que se fazem dentro do Wicca?
R: A forma como me coloca a pergunta é interessante! Sabe que a expressão "cerimónia" é uma expressão de origem latina aplicada aos cultos de Ceres, a Deusa romana do grão dos cereais? E isso é tanto interessante quanto os nossos rituais são verdadeiras "cerimónias" no sentido mais profundo da palavra, isto é, rituais à volta do grão, da semente! A semente é para nós a epifania do ser, do espírito divino dentro de nós e que pela miopia dos nossos condicionamentos já não vemos nem reconhecemos.
   É ela que é simbolicamente semeada e germinada nos nossos rituais Lunares, a que chamamos de Esbates, para que possa crescer e frutificar, morrer e renascer nos nossos Sabates.
   Como nas festas de Ceres eles visam ajudar ao seu despertar das profundezas da terra gelada do Inverno, da natureza enregelada da personalidade humana e do escuro inconsciente da sua alma. Lembre-se que eles eram celebrados em Fevereiro, quando se preparava para semear a terra recém desperta, e animá-la com o seu regozijo de alegria!
   Mas nós temos dois tipos fundamentais de cerimónias que apelam a dois aspectos do nosso ser: os Esbates e os Sabates.
    Os Esbates referem-se ao impacto da relação cíclica dos Luminares, o Sol e a Lua, sobre o nosso mundo subliminal e inconsciente da Alma.
   Os Sabates celebram o seu impacto sobre o mundo do nosso espírito, visto enquanto reflectido na Terra.
   Embora o Sol esteja sempre presente nos nossos ritos, porque sem ele não existiríamos e nem haveria o propósito latente da evolução, os Esbates estão centrados á volta da Deusa da Lua e realizam-se nos dias de Lua Cheia.
   Os Sabates estão centrados no Deus da Terra enquanto reflexo do Sol Espiritual.

14- Mas, então o que são os Esbates e os Sabates?
R: Eu disse que os Esbates se realizavam no dia de Lua Cheia, recorda-se? Recorda-se, quando nos contavam que no dia de Lua Cheia os loucos se exaltavam e a sua loucura se tornava ainda mais delirante? O papel da Lua Cheia é trazer, invocar das profundezas do nosso inconsciente antropológico essas forças nocturnas e primitivas que eram encarnadas em certos Deuses Arcaicos, ou como é moda hoje dizer-se, em certos Arquétipos, e fazer-nos recordar essa parte primitiva do nosso mundo íntimo soterrada sob a mascara do nosso eu empírico e socializado.
   Esse acto liberatório é uma fonte inesgotável de poder e santidade. Não ria! Trata-se mesmo de santidade! É o percurso sinódico da Lua e o seu culminar cósmico na Lua Cheia que ajuda a libertar esse potencial de auto-transformação. Os nossos ritos desenvolvem-se então segundo certos "tempos cerimoniais", pautados pela Lua e o Sol em relação á Terra, quando as diferentes dimensões do nosso Ser Profundo podem mais facilmente entrar em sintonia.
   Mas, então, o que são os Sabates, perguntar-me á? Eu começaria por lhe realçar o seguinte para melhor perceber o que lhe vou explicar a seguir! O que caracteriza, sob o ponto de vista da Iniciação, o homem profano é o facto de viver apenas em algumas dimensões periféricas e específicas da sua pessoa, e usar uma fracção das suas potencialidades inatas. Seria possível eu poder libertar-me do que o filosofo Herbert Marcuse chamava a "unidimensionalidade do ser humano"?
   É essa possibilidade de pluridimensionalidade que os Sabates celebram no processo cíclico de metamorfose da Terra! O figurino desta multiplicidade é ao fim e ao cabo o Xamã, esse ancestral do bruxo e do feiticeiro moderno: ele era poeta, curandeiro, feiticeiro, sacerdote, caçador, guerreiro, etc.
   Mas dirá também: então o que é que isso tem a ver com a ideia dos Sabates serem festas agrícolas e celebrarem o ciclo de fecundidade da terra? A fecundidade que celebravam não era propriamente a Terra, no sentido amorfo e abstracto da palavra, mas a dos cereais, que desde os povos do Mediterrâneo era o representante do Espírito do Sol.
   Nos Sabates o Sol é visto sempre reflectido na Terra, particularmente sob a forma dum cereal ou de alguns animais como o Bode, o Veado e o Leão, e não lá longe, no cimo inacessível do céu, mas ao nosso lado e á nossa volta, nas florestas e nos animais, nas arvores e nos elementos. Vemo-lo imanente na natureza e não transcendente, distante de nós!
   Eu julgo que isto corresponde a uma época arcaica de evolução em que os homens eram clarividentes, pelo menos era essa a tese de muitos autores como René Guénon e Rudolf Steiner. Eles sentiam, por isso, as forças solares resplandecendo à sua volta no mundo da natureza. Mais tarde a clarividência atávica atrofiou-se e essas forças numinosas afastaram-se da nossa compreensão e começamos a senti-lo distante. É então, que nasce uma ânsia de o alcançar e com ele atingir esse estádio antiquíssimo em que éramos parte do todo universal.
   No Wicca nós agimos como se estivéssemos ainda nessa época. Há razões para o fazer! A nossa época apresenta características muito semelhantes à de então, porque as forças de clarividência dos povos e a ânsia de regressar a fases de civilização imbricadas na natureza que lhe estão associadas, está a regressar como possibilidade de experiência e conhecimento. A impotência das religiões patriarcais está em não saber lidar com esse factor, porque foram feitas para um tipo de homem que sentia (ou ainda sente) falta de um intermediário consagrado para se aproximar outra vez do Sol, do Espírito Divino.

Entrevista Gilberto Lascariz Parte 1

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